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Quarta, 12 de Maio de 2010


Cirurgia bariátrica pode curar diabéticos

Em entrevista recente ao Jornal O Estado, Dr. Hérquimas da Costa Pereira explica que a cirurgia da obesidade beneficia diabéticos obesos


O avanço científico no campo da medicina tem melhorado a qualidade de vida de pacientes diabéticos. Uma novidade é a possibilidade de cura por meio da cirurgia bariátrica, um procedimento novo para estes pacientes, o qual favorece o emagrecimento rápido e menor ingestão de alimentos. O Dr. Hérquimas da Costa Pereira, que participou mês passado, em Recife, do Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, informou que há comprovações científicas que indicam este tipo de cirurgia para diabéticos com Índice de Massa Corporal (IMC) de 30 a 35, com grande possibilidade de cura (até então, era indicada só para IMC acima de 35, a chamada obesidade mórbida). Em São Luís, a novidade tem trazido esperança para muitos pacientes que recorrem ao trabalho da equipe comandada por ele no Serviço de Cirurgia da Obesidade e do Aparelho Digestivo (SCOAD) e no Instituto de Medicina do Maranhão (IMMA). Sobre quem pode fazer a cirurgia, seus benefícios e contra-indicações, Hérquimas Pereira falou com exclusividade a O Estado.

O ESTADO – A cirurgia bariátrica é indicada para que tipos de diabéticos?
Dr. Hérquimas – Para os casos de diabetes tipo 2, quando o emagrecimento é um objetivo primordial e o paciente não obtém êxito na perda de peso por métodos clínicos. Ou seja, é quando temos um paciente com falha no tratamento clínico para perda de peso, com IMC maior que 30 e associação a doenças relacionadas à obesidade, como hipertensão. Nestes casos, a cirurgia deve ser considerada, cogitada. Deve também haver a presença de risco cirúrgico aceitável, cuja avaliação é feita por um cirurgião habilitado. O paciente deve ainda ser esclarecido sobre procedimentos de longo prazo, como manutenção de terapias dietéticas e suplementação vitamínica contínua após a cirurgia, além da possibilidade de ele ter um acompanhamento com equipe multidisciplinar nas áreas clínica (endocrinologia), nutricional e psiquiátrica.

O ESTADO - A cirurgia pode curar o diabetes tipo 2?
Dr. Hérquimas - A cura, remissão ou controle sem medicamentos são atingidos em 80% dos casos. Ela não depende tanto da quantidade de peso perdido. A cura depende da reserva pancreática para a produção de insulina, que é tanto mais eficaz quanto menor o tempo de doença. Como exemplo prático, a remissão ocorre em quase 100% dos indivíduos que ainda não usam insulina. A evolução também depende muito do tipo de cirurgia. Os resultados são melhores na de derivação gastro-jejunal, conhecida como método Capella (a mais realizada no Brasil e no mundo), e não tão bons na de banda gástrica (em expansão no Brasil e no mundo).

O ESTADO – Como a cirurgia funciona?
Dr. Hérquimas - O raciocínio é o seguinte: A cirurgia ajuda na perda de peso, o que permite à insulina produzida no organismo funcionar melhor, facilitando o consumo da glicose pelo corpo. O segundo fato é um aumento na produção de um hormônio do intestino, chamado GLP-1, da classe das incretinas, que estimula o pâncreas a produzir mais insulina. Em resumo, o corpo terá mais insulina disponível e esta funcionará melhor. O acompanhamento sistemático, crônico, facilitará a motivação para medidas preventivas não-farmacológicas, tais como exercícios e cuidados com uma alimentação saudável. Mais informações podem ser obtidas no site www.scoad.com.br.

O ESTADO - Quais são os benefícios da cirurgia para pacientes com diabetes tipo 1 e 2? Existem diferenças significativas?
Dr. Hérquimas - A melhora do diabético com a cirurgia ocorre em 100% dos casos, com redução das necessidades de medicamentos, tanto para o tratamento do diabetes em si, como para o tratamento das doenças associadas, como hipertensão e dislipidemia (aumento anormal da taxa de gordura no sangue). Isto vale para o diabetes tipos 1 e 2, pois ambos têm risco de morbimortalidade associados não apenas à hiperglicemia, como a outras alterações metabólicas presentes na obesidade mórbida, e, portanto, passíveis de melhorarem com o emagrecimento induzido pela cirurgia. No caso dos pacientes do tipo 2, a melhora do controle pode levar a uma suspensão completa das medicações anti-diabéticas. Na prática, a quase totalidade dos pacientes deixa de usar insulina e até 30% dos casos mantêm apenas o uso de hipoglicemiantes orais.

O ESTADO - Que desvantagens a cirurgia traz?
Dr. Hérquimas - Não podemos esquecer do risco de morbimortalidade peri-operatório (períodos antes, durante e depois da cirurgia). Porém, da mesma forma, nossos pacientes diabéticos são submetidos a cirurgias de portes semelhantes - como colecistectomias (retirada da vesícula biliar) e histerectomias (retirada do útero e ovário) -, as quais apresentarão risco muito menor em pacientes diabéticos magros. Além disso, acreditamos que a cirurgia bariátrica poderá evitar cirurgias de revascularização coronarianas e amputações, por exemplo. Uma desvantagem potencial é a presença de distúrbios nutricionais, como anemia e deficiência de vitaminas. Estas alterações podem ser prevenidas pelo tratamento multidisciplinar com um nutricionista.

O ESTADO - Especialistas dizem que é necessário um acompanhamento multidisciplinar para o resto da vida. No caso dos diabéticos, há necessidade de reforço neste acompanhamento?
Dr. Hérquimas - Sim. O reforço é no sentido de orientar o paciente com diabetes nos ajustes freqüentes em seu tratamento, cuja tendência é a redução, passo a passo, da quantidade de medicamentos após a cirurgia. Muitos terão que tomar apenas vitaminas, mas sempre serão beneficiados pelas orientações quanto à prática de exercícios, hábitos dietéticos e adaptação psicológica a uma nova vida. Este termo, incusive, é muito usado pelas pessoas operadas, que costumam dizer: “Nasci de novo”.

O Estado – No congresso sobre cirurgia de obesidade, que outras novidades para pacientes diabéticos foram divulgadas?
Dr. Hérquimas – Uma grande novidade é a cirurgia para o chamado diabético magro, com IMC de 18 a 27. Este procedimento ainda está em estudo, mas acredito estar próximo de se tornar realidade. No entanto, devemos aguardar a confirmação dos estudos para esses pacientes.



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